
E o bardo se foi. Estava adiando há tempos um texto sobre ele. Infelizmente, ele se foi antes. Seu último disco, “American IV: The Man Comes Around”, é um dos mais interessantes que escutei nos últimos anos.
Nesse projeto, que já tinha rendido outros três volumes, ele resgata várias gemas do rock. No último, ele regravou a canção, ou melhor, o hino da autocomiseração do Nine Inch Nail: “hurt”. Os versos “I hurt myself today / To see if I still feel / I focus on the pain” nunca soaram tão verdadeiros.
Sua voz faz com que fiquemos condoídos, algo como o vocalista do Alice in Chains conseguia. Isso é o que distingue o cantor do interprete. A dor, que não necessariamente é nossa, nos é passada pela voz de outra pessoa (e nós a compartilhamos). Pouquíssimos artistas conseguem isso sem cair no ridículo (ser caricatural, como o vocalista do Creed, é um erro recorrente).
Mas esse disco ainda traz outro grande acerto. A regravação de “Personal Jesus”, do Depeche Mode. E nos demais discos? escute “One”, do U2, na voz de Johnny Cash e você vai perceber que o que mais conta não é a técnica vocal, mas a emoção.
E ele morreu justamente na hora em que estava sendo redescoberto. Na Amazon.com, vários de seus discos estão entre os mais vendidos. Ademais, o clipe de “Hurt” foi indicado em várias categorias da premiação da MTV americana.
Pelo menos a obra fica. E vêm mais coisas por aí. Rick Rubin, produtor dos últimos discos dele, afirma que há ainda muito material a ser lançado. Espero ansioso.
Dizem que não se morre de amor. Antes da morte de Johnny Cash, diziam que ele havia mergulhado no trabalho, visto que não suportava a ausência da sua mulher, que havia morrido recentemente. E tem o caso também da mulher de Fellini, que morreu pouco tempo depois do grande cineasta. Precisa escrever mais alguma coisa? Precisa: o amor pode até não matar, mas a saudade…




