Quem dita hoje o que deve ou não ser escutado é a imprensa inglesa. E tudo isso por causa do que se chama “novo rock”. Isso foi a salvação, aliás. O periódico Melody Maker foi para o saco antes do “movimento”… A New Music Express estava fadada ao mesmo destino. Grupos outrora líderes de venda, como Oasis, estavam cada vez menos fazendo sucesso (o britpop, enfim, chegava ao fim). A NME teve uma sobrevida com o surgimento de bandas como Travis, Coldplay e Starsailor. A impressa musical, desesperada, tentou taxar o som de bandas tão diversas com o rótulo de “new acoustic”. Felizmente, o rótulo não pegou.
Tudo mudou com o surgimento do “novo rock”. Bandas que já tinham uma carreira no underground (White Stripes) e outras que nem disco tinham (como Strokes) foram jogadas no mesmo saco e alardeadas como salvadoras do rock. De lá para cá, já surgiram várias outras, como Yeah Yeah Yeah, Raptures, Hot Hot Heat etc. Como diriam os Titãs, “a melhor banda de todos os tempos da última semana”. O único ponto de interseção entre tais grupos é que reciclam idéias antigas.
Muitas vezes apenas duas ou três músicas de um álbum inteiro de tais bandas são relevantes, mas todo o disco é laureado. Muitas dessas bandas, se não fossem por toda a atenção da mídia, não teriam destaque nenhum. Fora desse contexto, não dariam em nada (em alguns casos seria uma pena, outras nem tanto).
A imprensa inglesa tem muitos méritos (foi ela que alardeou em grande escala o talento de Bob Dylan). Exemplos como esse existem aos montes. Entretanto, ultimamente se optou por um jornalismo deslumbrado, de muitos adjetivos, superlativos… O componente crítico, o olhar mais acurado da realidade, vai cada vez mais perdendo lugar. Isso é tudo, menos jornalismo.
Pessoas, jornalistas gostam de se fazer de entendidos, de descobrir coisas, de vaticinar o que é bom e o que é ruim. É como uma vidente: dos erros das previsões não se fala tanto, mas dos acertos… Exemplo: Eletric 6, antes muito propalado, hoje… O disco, que tem apenas duas músicas boas, cada vez mais vai caindo no esquecimento. Ué, não era uma das bandas mais promissoras? E o que falar do Kings of Leon? Depois de certo alarde inicial, o disco deles vai caindo cada vez mais nas paradas.
Aqui cabe um adendo: eu não estou dizendo que o sucesso comercial é garantia de produto bom, mas muitas das resenhas positivas usam tal justificativa sobre as possíveis qualidades dos grupos.
Para quem acha que estou falando de coisas muito recentes, vamos um pouco mais para trás. Sabe o grupo At the Drive In, outrora chamado de “novo nirvana”? Pois é, acabou. E a banda And You Know Us…? Ninguém fala mais (apesar de ter lançado um disco não faz tanto tempo assim). E o Interpol, não ia estourar?
Houve um tempo que Belle e Sebastian era “o som”. Capa no caderno de cultura da Folha de S. Paulo (inclusive falando sobre o mistério da banda, que não tirava fotos e tal…). Aí, depois veio o fatídico show no Brasil, em que eles cantaram até Caetano Veloso. As resenhas mudaram totalmente: o som do grupo é monocórdio, as letras são tolas etc.
Ademais, invariavelmente, tais sapientes senhores passam a criticar o que logrou sucesso (artístico e/ou comercial). Cito apenas um exemplo: O Linkin Park, quando não fazia sucesso, era descrito como uma das poucas bandas de new metal (ah, esse rótulos…) com qualidade (sobravam elogios também para o Deftones). Depois do sucesso comercial, as críticas foram excessivamente negativas. Já o Deftones, que nunca estourou na mesma proporção, continua com boas resenhas.
Enquanto isso, outros sons não ganham destaque nenhum da mídia, como a música espânica. Café Tacuba é um grande grupo, mas que não ganha uma linha sequer por aqui (com raras e boas exceções). Com isso, joga-se no lixo uma gama de bandas interessantes. De outra feita, um país com a Islândia, de apenas 200 mil habitantes, vira e mexe tem uma banda do momento. Na Inglaterra mesmo algumas bandas nunca recebem grande simpatia da imprensa. Já ouviu falar de grupos como Cave In e Aqualund? Pois é, são interessantes, mas não são tão festejados.
Mas aí você pode retrucar que eu posso gostar de tais sons, mas o gostar é subjetivo, varia de pessoa para pessoa. Concordo plenamente. Entretanto, quando só nos é mostrado um lado, não temos como optar por outros sons. A imprensa está viciada em apenas alguns periódicos (e o que eles dizem todos vão atrás). A pluralidade não é respeitada. Cabe a você, então, garimpar, não se contentar com as mesmas fontes de sempre.
Muitas vezes os jornalistas culturais se movem por manadas. Houve um tempo que era bom descobrir sons de outros países (mas de lingua inglesa). Foi o que fez a sorte de grupos como Hives, Vines, Hellacopters etc. O mesmo se pode dizer do cinema. Já existiu o momento do cinema chinês, iraniano… Atualmente, está em voga o cinema argentino.
As vezes é bom para que se lance luz sobre manifestações artíticas que não viriam a tona comumente. Mas muitas vezes trata-se de um engodo, que tem mais a ver com marketing (leia esse texto sobre Caetano Veloso) do que com qualidade artística.
Hoje, quando há abundância de informação por todos os lados, ser inepto em muitos casos é uma opção. Por isso, sugiro que seja inteligente: não engula tudo que empurram na sua goela abaixo. Tente mastigar antes…
PS – Muito dos grupos citados aqui eu até aprecio, o que varia é a gradação do gostar. O que não gosto, acima de tudo, é do descabido.