Aniversário

20 02 2004


Dois anos. Dia 20 de fevereiro de 2002. Tantas histórias, textos, causos… Mudanças de endereço, de humor, de estilo. “Não penso como normalmente devemos pensar, isto é, articular logicamente raciocínios. Não. Sacudo as idéias de lá pra cá (…), e dessa sacudidela é que, quando me sento para escrever, sai alguma coisa, sempre inesperada.” (Alceu Amoroso Lima)
Novos amigos, reencontros inesperados, mágoas expostas… Momentos tristes, fases alegres. A vida segue.
Porque ter um blog? Segundo Contardo Caligaris, “para que a vida de cada dia tenha a dignidade de uma história contada. Os diários provam que a vida deve valer, ao menos, a tinta necessária para contá-la.”
Ou simplesmente porque é bom escrever. Como afirmou Gabriel García Márquez, “a vida não é o que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para conta-la”.
No final das contas, é como disse Gramsci: “todos somos artistas!” 





Untitle

15 02 2004

“Não vos apoieis sobre os juncos que o vento
agita e não lhes deposite vossa confiança, pois
toda carne é como a erva, e sua glória passa
como a flor dos campos.”

A Imitação de Jesus Cristo

Não faz sentido, simplesmente não faz sentido. Não é comum porque não ocorre todo dia, mas também não é esquisito, estranho. Mas esse é o ideal… Mas quando o ideal não se faz presente… Quando isso se torna corriqueiro, vira normal? Quiçá peça do cotidiano? O normal, então, é o não-normal? “Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.” (Fernando Sabino)

É nessas horas que escuto Radiohead:

“Lamento por nós
Os dinossauros vagam pela Terra
O céu está verde”

(“Where I End and You Begin”)

Mas o pensamento continua turvo, pensa, pensa, pensa e nada… “escrever é uma dádiva humana, eterno acerto de contas com os próprios fantasmas”. (Arthur Dapieve). E há momentos que você não pensa naquilo, mas aquilo fica ocupando seus pensamentos. “os que atravessam o mar mudam de céu, não de alma.” (Horácio)





"O HOMEM E AS COISAS"

15 02 2004


Quando eu era menino
Olhava para as coisas
Como se sempre as visse
Pela primeira vez.

Agora que estou velho
Sempre olho para elas
Como, ai de mim, se as visse
Pela última vez.
Poema de Manuel Bandeira inédito publicado em “100 Vezes Bandeira”





A hora de Carolina

15 02 2004


Em outubro, completará 100 anos de morte de Dona Carolina, esposa e presença forte no percurso de Machado de Assis. O Globo traz uma boa matéria sobre o assunto. Transcrevo abaixo um poema do fundador da Academia Brasileira de Letras para a sua amada.

QUANDO ELA FALA

Quando ela fala, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ela fala.

Meu coração dolorido

As suas mágoas exala.

E volta ao gozo perdido

Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,

Ao lado dela escutá-la,

Ouvir sua alma inocente

Quando ela fala.

Minh¿alma, já semi-morta,

Conseguira ao céu alçá-la,

Porque o céu abre uma porta

Quando ela fala.





Music is my radar

15 02 2004


Para quem reclamava que eu andava não falando de música, aqui vão alguns comentários sobre alguns discos que escutei recentemente.
Slideling, de Ian Mcculloch – A voz já não é a mesma, mas a qualidade ainda se faz presente. Em seu mais recente disco solo, o eterno vocalista do Echo and the Bunnymen, se não mantém o mesmo nível da sua banda, pelo menos não faz feio. Para quem gosta do grupo que marcou a década de 80 (e é adorada por Chris Martin, do Coldplay), Mcculloch faz exatamente o som que fazia antigamente. Uns vão dizer que é datado, mas eu não. Até porque é melhor um bom bife requentado do que uma comida nova e insossa. Destaque para as faixas Slideling e She Sings (All My Life).
Kish Kash, Basement Jaxx - Eis o melhor disco de techno do ano passado. Justamente por não ficar preso ao tuntuntun sem vocal que em muitas vezes só serve para camuflar a falta de criatividade. Basement Jaxx faz um som mais palatável, assim como o Chemical Brothers. Destaque para Good Luck (com Lisa Kekaula), Plug It In (Jc Chasez, o carinha do NSync), Living Room e Cish_Cash_(com a eterna musa dos góticos, Siouxsie_Sioux). Para escutar non-stop.
Love Actually - A trilha do filme que é maravilhoso para assistir apaixonado e uma provação para os solitários é bem variada. Tem desde o pop grudento (Too Lost in You, Sugababes), passando por canções deliciosamente bregas (Jump, Pointer Sisters), clássicos (Both Sides Now, de Joni Mitchell e God Only Knows, Beach Boys) até as babas desnecessárias (Wherever You Will Go, The Calling). A minha predileta? Here with Me, da Dido.
Talkie Walkie, Air - Disco bacana do duo francês de música eletrônica. Se achou o último álbum deles (10,000 Hz Legend) esquisitão demais, esse é bem mais pop, vide Moon Safari. Eu recomendo tudo deles.
Quelqu’un M’a Dit, Carla Bruni – Disco de ex-modelo italiana que canta em francês? As credencias não são nada boas, né? Mas o disco é bom. A moça tem talento, faz um pop adulto, tanto é que compõe para outros também.
Liquid Skin, Gomez – Disco de 1999 desse grupo que de latino só tem o nome. A banda faz um som bem indie. Um quê de acústico aliado a uma verve bem melancólica (se gosta de Wilco, essa é a sua praia). Vale a pena. Ressalta-se a faixa Devil Will Ride.
Lost Dogs, Pearl Jam - Esse é, com certeza, o disco que tenho escutado mais. Trata-se de uma coletânea de lados b da banda. Os destaques são vários: Yellow Ledbetter, Let me sleep etc. Mas “a” música é Footsteps. Numa resenha do disco No Code, a revista Rolling Stone afirmou que Eddie Vedder cantava “como se estivesse confessando seus pecados, numa conversa direta com deus”. Quando você escuta essa música, Footsteps, fica claro o crítico quis dizer. Só de escutar os versos I did a what I had to do / If there was a reason, it was you você fica condoído. Trata-se da canção perfeita para momentos em que você se rende à autocomiseração… Enfim, sublime.





Music is my radar

15 02 2004


Para quem reclamava que eu andava não falando de música, aqui vão alguns comentários sobre alguns discos que escutei recentemente.
Slideling, de Ian Mcculloch – A voz já não é a mesma, mas a qualidade ainda se faz presente. Em seu mais recente disco solo, o eterno vocalista do Echo and the Bunnymen, se não mantém o mesmo nível da sua banda, pelo menos não faz feio. Para quem gosta do grupo que marcou a década de 80 (e é adorada por Chris Martin, do Coldplay), Mcculloch faz exatamente o som que fazia antigamente. Uns vão dizer que é datado, mas eu não. Até porque é melhor um bom bife requentado do que uma comida nova e insossa. Destaque para as faixas Slideling e She Sings (All My Life).
Kish Kash, Basement Jaxx - Eis o melhor disco de techno do ano passado. Justamente por não ficar preso ao tuntuntun sem vocal que em muitas vezes só serve para camuflar a falta de criatividade. Basement Jaxx faz um som mais palatável, assim como o Chemical Brothers. Destaque para Good Luck (com Lisa Kekaula), Plug It In (Jc Chasez, o carinha do NSync), Living Room e Cish_Cash_(com a eterna musa dos góticos, Siouxsie_Sioux). Para escutar non-stop.
Love Actually - A trilha do filme que é maravilhoso para assistir apaixonado e uma provação para os solitários é bem variada. Tem desde o pop grudento (Too Lost in You, Sugababes), passando por canções deliciosamente bregas (Jump, Pointer Sisters), clássicos (Both Sides Now, de Joni Mitchell e God Only Knows, Beach Boys) até as babas desnecessárias (Wherever You Will Go, The Calling). A minha predileta? Here with Me, da Dido.
Talkie Walkie, Air - Disco bacana do duo francês de música eletrônica. Se achou o último álbum deles (10,000 Hz Legend) esquisitão demais, esse é bem mais pop, vide Moon Safari. Eu recomendo tudo deles.
Quelqu’un M’a Dit, Carla Bruni – Disco de ex-modelo italiana que canta em francês? As credencias não são nada boas, né? Mas o disco é bom. A moça tem talento, faz um pop adulto, tanto é que compõe para outros também.
Liquid Skin, Gomez – Disco de 1999 desse grupo que de latino só tem o nome. A banda faz um som bem indie. Um quê de acústico aliado a uma verve bem melancólica (se gosta de Wilco, essa é a sua praia). Vale a pena. Ressalta-se a faixa Devil Will Ride.
Lost Dogs, Pearl Jam - Esse é, com certeza, o disco que tenho escutado mais. Trata-se de uma coletânea de lados b da banda. Os destaques são vários: Yellow Ledbetter, Let me sleep etc. Mas “a” música é Footsteps. Numa resenha do disco No Code, a revista Rolling Stone afirmou que Eddie Vedder cantava “como se estivesse confessando seus pecados, numa conversa direta com deus”. Quando você escuta essa música, Footsteps, fica claro o crítico quis dizer. Só de escutar os versos I did a what I had to do / If there was a reason, it was you você fica condoído. Trata-se da canção perfeita para momentos em que você se rende à autocomiseração… Enfim, sublime.





Pop Art

15 02 2004


Keith Haring X Andy Warhol? Andy Warhol e Keith Haring.





Pop Art

15 02 2004


Keith Haring X Andy Warhol? Andy Warhol e Keith Haring.





Pobres monarcas sem sapatos

15 02 2004

“Nothing ever lasts forever

Everybody wants to rule the world”

(Everybody Wants to Rule the World, Tears for Fears)

 

Vivemos uma época de pequenos ditadores, de sanguinários vassalos de diminutas localidades. Nunca o “eu” esteve tão forte e o coletivo tão diminuto. O egoísmo atual deixaria Narciso surpreso.
Cada vez mais pensamos no próprio umbigo, deixando para o outro um papel secundário, muitas vezes de subserviência. Criticamos a megalomania de líderes como Bush, mas cometemos atos violentos em nossos reinos privados.
Quantos podem se orgulhar de serem bom chefes? Que são bons comandantes para os seus subalternos? Isso muitas vezes depois de terem ocupado cargos inferiores, de terem criticado a forma autoritária dos superiores, mas quando chegam ao poder… Porque? Porque tem gente que pensa que mandar é ser duro. Tais pessoas nunca saberão a diferença entre ser líder e ser chefe.
É como minha avó falava: “quer conhecer mesmo o caráter de uma pessoa? Dê dinheiro e poder a ela”. O pior é que mesmo sem grandes poderes, todos querem mandar. Ou mandam, mesmo não existindo a concordância do outro.
Essa predominância do “eu” ocorre também nas relações pessoais. Quantos são bons parceiros, se doam de forma altruísta? Muito poucos. A maioria quer ser amada, não amar. Quando algo sai errado, logo relacionamentos são desmanchados. Porque? Porque o eu é mais forte que o nós. Não há porque se esforçar se eu sou mais importante que o coletivo. As relações amorosas viraram troca, não doação. Pior: muitas vezes trocas injustas.
Talvez seja reflexo das relações familiares, da geração de pais que criou a contra-cultura, que lutou pelas liberdades individuais. Sem saber como lidar com o controle dos filhos, acabam não cerceando nada, não sabem impor limites. Resultado: criaram uma geração de pessoas mimadas, que culminaram em adultos ditadores.
Até em sociedades pautadas pelo respeito do outro, dos mais velhos, isso está mitigando. Na China, com a política do Governo de incentivar famílias a terem apenas um filho, está morrendo a cultura dos tios, primos… Vi, inclusive, uma entrevista de um senhor falando que seu neto não respeitava os pais, os mais velhos, “só pensava em si”.
Enfim, podemos até ser ditadores de reinos próprios mas, roubando uma frase de Pablo Neruda, que são “governados por pobres monarcas sem sapatos”.





Pobres monarcas sem sapatos

15 02 2004

“Nothing ever lasts forever

Everybody wants to rule the world”

(Everybody Wants to Rule the World, Tears for Fears)

 

Vivemos uma época de pequenos ditadores, de sanguinários vassalos de diminutas localidades. Nunca o “eu” esteve tão forte e o coletivo tão diminuto. O egoísmo atual deixaria Narciso surpreso.
Cada vez mais pensamos no próprio umbigo, deixando para o outro um papel secundário, muitas vezes de subserviência. Criticamos a megalomania de líderes como Bush, mas cometemos atos violentos em nossos reinos privados.
Quantos podem se orgulhar de serem bom chefes? Que são bons comandantes para os seus subalternos? Isso muitas vezes depois de terem ocupado cargos inferiores, de terem criticado a forma autoritária dos superiores, mas quando chegam ao poder… Porque? Porque tem gente que pensa que mandar é ser duro. Tais pessoas nunca saberão a diferença entre ser líder e ser chefe.
É como minha avó falava: “quer conhecer mesmo o caráter de uma pessoa? Dê dinheiro e poder a ela”. O pior é que mesmo sem grandes poderes, todos querem mandar. Ou mandam, mesmo não existindo a concordância do outro.
Essa predominância do “eu” ocorre também nas relações pessoais. Quantos são bons parceiros, se doam de forma altruísta? Muito poucos. A maioria quer ser amada, não amar. Quando algo sai errado, logo relacionamentos são desmanchados. Porque? Porque o eu é mais forte que o nós. Não há porque se esforçar se eu sou mais importante que o coletivo. As relações amorosas viraram troca, não doação. Pior: muitas vezes trocas injustas.
Talvez seja reflexo das relações familiares, da geração de pais que criou a contra-cultura, que lutou pelas liberdades individuais. Sem saber como lidar com o controle dos filhos, acabam não cerceando nada, não sabem impor limites. Resultado: criaram uma geração de pessoas mimadas, que culminaram em adultos ditadores.
Até em sociedades pautadas pelo respeito do outro, dos mais velhos, isso está mitigando. Na China, com a política do Governo de incentivar famílias a terem apenas um filho, está morrendo a cultura dos tios, primos… Vi, inclusive, uma entrevista de um senhor falando que seu neto não respeitava os pais, os mais velhos, “só pensava em si”.
Enfim, podemos até ser ditadores de reinos próprios mas, roubando uma frase de Pablo Neruda, que são “governados por pobres monarcas sem sapatos”.





Objetos elementares de Noll

15 02 2004


Mínimos, múltiplos, comuns, de João Gilberto Noll. W11 Editores -Selo Francis, 478 pgs. R$ 56
Uma maneira precária de encarar “Mínimos, múltiplos, comuns” é considerar o livro uma reunião de romances minúsculos, que não chegam a passar, cada um, das vinte linhas. Já Noll prefere chamá-los de “instantes ficcionais”, como se fossem histórias captadas no ar, por uma rede, ou tela. [leia mais]





Hair

15 02 2004




Mais

15 02 2004

E há mais Woody Allen para ser visto. Recomendo todos mas “Manhattan” e “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” são obras-primas. O segundo é um dos filmes mais engraçados que já vi.





Freak Show

15 02 2004

Há acontecimentos diante dos quais a única reação possível é implorar: “Por favor, desaconteçam!”. (Roberto Pompeu de Toledo)





Who am I?

15 02 2004


E ouviu tudo que ela dizia. Aliás, sempre acatava o conselho de todos. E, de tanto escutar o conselho dos outros, acabou virando outro. Agora, sente uma saudade danada dele mesmo. “…No espelho há outro que está à espreita” (Jorge Luis Borges)





Dicas

15 02 2004


Já viram isso?
***
Um passeio pelo planeta vermelho.
***
Misture um site no outro para ver no que dá. É só clicar aqui.





Poema

15 02 2004


Cacaso

Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.

Toda felicidade é memória e projeto.





Gotas que afogam…

15 02 2004


Certa vez, o poeta Saint-John Perse afirmou que, devido à chuva, todas as coisas parecerem “o lado avesso de um sonho.” É verdade. Fortaleza se transforma num caos… o que leva a outro ponto.
“Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!”

(Sol dos Insones, Lord Byron)
No livro Desonra, de J.M. Coetzee, uma personagem afirma que, quando tudo falha, filosofe. O pior é que sou ruim em filosofar.





Gotas que afogam…

15 02 2004


Certa vez, o poeta Saint-John Perse afirmou que, devido à chuva, todas as coisas parecerem “o lado avesso de um sonho.” É verdade. Fortaleza se transforma num caos… o que leva a outro ponto.
“Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!”

(Sol dos Insones, Lord Byron)
No livro Desonra, de J.M. Coetzee, uma personagem afirma que, quando tudo falha, filosofe. O pior é que sou ruim em filosofar.





Loas a um amigo

15 02 2004

“Pensar poeticamente é se atrever ao pré-dito do pensamento (…), permitindo-lhe se apresentar nas palavras.” (Alberto Pucheu).