Hoje começo uma série de ensaios sobre os equívocos do amor. Nada a ver com minha situação, que vai muito bem. Atendo o pedido de uma amiga, que gostaria que eu versasse sobre o assunto.
Amores brutos – ensaios
Parte 1 – A idealização do amor
O amor é um sentimento, ou seja, algo abstrato. Todavia, é necessário que seja calcado em coisas reais. Do contrário, não passará de palavras sem raízes. Afetuosidade, respeito, atenção. Palavras que só ganham sentido quando praticadas. Assim é o amor (que se vale dessas palavras que citei e muitas outras).
Há aqueles que admiram os talentos de uma pessoa, e não especificamente o parceiro. Ele é um bom músico, um profissional maravilhoso, um escritor de talento, um cineasta de visão… Como namorado, deixa a desejar, mas isso é apenas a parte de um todo, mesmo sendo essa lacuna o fator que faz alguém dizer (realmente) “eu te amo”. “Se é verdade que o amor nunca morre, por que os amantes se esforçam tanto para continuarem?” (“Please Sister”, Cardigans).
Outras vêem os defeitos do parceiro como um desafio. Ele não sabe demonstrar seus sentimentos, mas com o tempo vou fazê-lo perder esse medo. Ele é mulherengo? Vou fazê-lo ser devoto apenas do meu amor. Ele bebe em excesso, fuma, usa drogas… Isso tudo vai mudar. O meu amor será a sua redenção. “E agora, que será de nós sem bárbaros? Essa gente, apesar de tudo, era uma solução“. (Konstantinos Kaváfis, em “À Espera dos Bárbaros”).
Há quem apenas justifique os erros e os aceite. Ele é assim porque sofreu na infância. O pai traía muito a mãe dele, por isso ele não me respeita. Conclusão equivocada: quem ama, sente por completo. Com todas as imperfeições inclusas. “Eu aprendi que a alegria/ de quem está apaixonado/ é como a falsa euforia/ de um gol anulado” (Aldir Blanc).
Todavia, a maior causa de amores sem amor é a solidão. Aquela pessoa que, por razões diversas, não namora há um bom tempo ou que sofreu demais num relacionamento passado. Muitas vezes descarrega uma gama de sonhos em alguém que mal conhece. “E quando chove aqui/ Chove tão forte/ Mas nunca forte o bastante para lavar embora o desespero/ Vou trocar meu amor de hoje por um amor maior amanhã” (“The home front”, Billy Bragg). Em pouco tempo, já está dizendo “eu te amo”. Nada mais inócuo que isso. Por estar tanto tempo sem ninguém, há uma grande quantidade de sentimento acumulado. Sentido, mas não vivido. De certa forma, o amor precede o ser amado.
O pior é que se pode investir nessas “mentiras” durante muito tempo. Podem perdurar para sempre. E, mesmo quando acaba, não há garantia que as “lições” serão aprendidas. Alguns podem maldizer o amor, afirmar que ele não existe, que isso é ilusão de românticos. Outros vão investir sempre, mas com a emoção eclipsando a razão.
Vidas arruinadas pelo amor, mas vividas sem amor. Príncipe com cavalo branco? Somos nós mesmo que criamos…




