Celebridade

7 07 2006

“Aviso aos alunos: até segunda ordem, até que os dicionários sejam compilados por programas de televisão e revistas de fofocas, “famoso” é adjetivo. A transformação da palavra em substantivo (como na frase “A festa estava cheia de famosos”) é sintoma da célebre vulgarização profetizada por Andy Warhol. O adjetivo estar dissociado de uma profissão ou, ao menos, de uma ação indica a ausência de causa para os quinze minutos.

As pessoas tornam-se famosas por serem famosas. O que fazem, se fazem? Não importa. O pior disso é a perda da própria noção de celebridade, ou seja, a incapacidade de reconhecê-la quando se tem a honra de estar diante de uma.” (Arthur Dapieve)




Derrota?

2 07 2006

Eis um fato que pode nos dar esperança. A derrota, em si, pode nos salvar. Se as coisas continuassem da forma que iam, falsas verdades iriam perpetuar. E, provavelmente, seria o fim do que é visto pelo mundo como escola brasileira de futebol. Essa seleção perdeu, e isso pode ser bom. A falsa dicotomia ou se joga bonito e perde ou se opta por um jogo mais “pragmático” e se ganha era totalmente equivocada. Terminou a copa para o Brasil, sem o país nunca ter convencido com o seu futebol. O país, pentacampeão do mundo, quis desdenhar de suas tradições para buscar resultados e acabou voltando mais cedo, sem obter os tais resultados. Por outro lado, seu algoz saiu-se vencedor jogando bonito. Uma lição travestida de ironia.

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E isso deveria servir de lição para o povo brasileiro também. O adesismo exacerbado, a completa falta de avaliação, a falta de contextualização das coisas, o desdém diante de posições mais críticas… Tudo isso voltou novamente à tona como característica genuinamente brasileira, bem como em outras situações, como a eleição. Apoiar o país virou um ato de fé, mesmo que tal postura careça de objetividade e sustância.

Agora, Parreira é um lixo. Todavia, em pesquisa divulgada na sexta, pelo jornal Folha de S. Paulo, ele tinha 64% de aprovação, e 71% queriam que ele seguisse à frente da seleção. Isso diante de todas as atuações pífias da seleção, mesmo enfrentando adversários bem mais fracos e sem tradição. Ou seja, a crença na vitória do Brasil não era calcada em nada objetivo. Era justamente isso, uma crença. Um desejo que era confundido com fato concreto. E isso desde o primeiro jogo. Ou seja, era uma tragédia que já se anunciava.

Todavia, minha crítica recai de forma mais forte sobre as pessoas ditas formadoras de opinião. Profissionais que vivem disso, que deveriam ter uma postura crítica, se portaram do mesmo jeito. Repetiam como mantras frases como “eu prefiro jogar feio e ganhar do que jogar bonito e voltar mais cedo”. Os fins justificariam os meios. A seleção não realizou coletivos, mudanças no esquema não eram precedidos de treino, um atleta se apresentou para jogar a copa com 95kg quando seu peso deveria ser 82kg etc. Tudo isso era minimizado. A falta de uma atuação convincente do Brasil foi vista como algo inferior. Afinal, não estávamos ganhando? Até quando existia uma crítica ela era colocada com eufemismo. Escalar certas pessoas não era teimosia, mas sim convicções do técnico, que é um grande estudioso do assunto, que é o professor. Esquecem que ele pouco fez quando não estava à frente da seleção. Que chegou a ser despedido numa primeira fase de copa do mundo.

Não quero colocar as situações de forma igualitária, mas talvez tenha ocorrido fato semelhante ao da cobertura da Guerra do Iraque, quando os jornalistas americanos tinham de acompanhar as tropas americanas, o que descambou para o adesismo total e irrestrito. O mesmo pode ser percebido na cobertura da copa, quanto até “rachões” eram transmitidos ao vivo.

Tenho a plena convicção de que um bom jornalista não apenas diz o que aconteceu; pode também traçar prognósticos, o que nesse caso era bem fácil, dada as péssimas apresentações brasileiras, à exceção da atuação contra o Japão (desde que colocada em perspectiva). E isso pouco foi visto nessa copa, a exceção de alguns jornalistas mais veteranos e da ESPN Brasil como um todo. O jornalista Renato Maurício Prado cunhou uma bela expressão para nomear esses jornalistas, geralmente da nova geração, que não tem postura crítica, que preferem ganhar a todo custo, mesmo a seleção tendo possibilidade de jogar melhor. E nem vou usar bonito ou dar show, visto que se tornaram palavras amaldiçoadas. Enfim, ele chamava isso de “A era Dunga de jornalistas”.

Em época de muita informação, em que muitas pessoas têm coluna, não leve em consideração qualquer coisa dita. Há bons profissionais em meio ao oba-oba. Tais analistas sempre souberam que o debate não era em torno de bonito/feio, mas sim de bom/ruim.

PS – Para não dizer apenas que os jovens jornalistas é que escrevem besteiras, leiam esse artigo de Ferreira Gullar. Eis um texto cheio de asneiras.